sábado, 19 de junho de 2010

Crónicas de uma Jovem VI


Capítulo VI



- Minha neta ouve o que te vou dizer. Tens um legado importante a carregar, como filha mais velha da família.

No seu leito de morte, só me queria a mim lá. O meu pai era o mais velho, e eu a herdeira mais velha e com a morte da minha mãe, mais se agravou a importância da minha existência. Ele falou-me então daquilo que nunca me havia falado antes.

- Nem todos nascemos feiticeiros com aptidões especiais para a magia branca, para poções ou para a forja, tal como nenhum ritual conseguiria tornar-nos como somos fisicamente para a vida toda. Apesar de grande parte do conhecimento poder ser aprendido, existe uma parte importante que nos distingue de um aluno aplicado ou de um prodígio. Um vez em cada geração, um ritual antigo criado pelos nossos ancestrais é executado, para garantir que a próxima geração que nascer seja igualmente bela e prodigiosa nas artes que correm na nossa família.

Claro que a inicio os meus olhinhos brilhavam. Eu pensava que se tratava de alguma cerimónia com poções e encantamentos recitados ao som dos guizos e do vento da montanha. Tinha uma visão bastante romântica de tudo o que poderia sair daqueles lábios moribundos, mas que em nada correspondiam à verdade. A dura realidade abateu-se então sobre mim, à medida que aquele avô, meu ídolo desde criança se alongava nas suas narrações.

- Além do livro cheio de magias brancas e poções, e da arca de pergaminhos cheias de instruções para a forja mágica e para encantamentos de minerais e espelhos, mais um livro existe em salas mais escondidas na nossa aldeia subterrânea.

Foi naquele momento que percebi que algo estava errado, ao ouvir o meu avô dizer-me que competia agora ao filho mais velho da geração liderar os rituais mais uma vez, nas salas antigas. Uma parte de mim, sedenta de curiosidade, pedia por mais informações, mas uma outra parte, que sempre havia sofrido em silêncio com sonhos assustadores receava perguntar o que realmente existia e que eu desconhecia.


Muitos mistérios escondem as montanhas


terça-feira, 15 de junho de 2010

Crónicas de uma Jovem V


Capítulo V



As horas vão passando sem que eu dê conta, até que a pele começa a ficar enrugada e reparo no relógio.

- Vou atrasar-me… Daqui a pouco devem estar a vir chamar-me.

A minha mãe nunca se atrasava, nem sequer voltava atrás na palavra. Uma mulher honrada, um membro da família respeitado embora não amado pela maioria e acima de tudo, uma mãe perfeita! Dava-nos toda a atenção que podia e ensinava-nos tudo o que conseguia. Aquela voz doce e calma, quase parecida com a do avô…

- Filha, se algum dia puderes, visita outros lugares e conhece outras pessoas. Há tanto no mundo além destas montanhas! Falei com algumas pessoas para te inscrever a ti e aos teus irmãos numa escola fora daqui. Falei com o teu pai e ele concordou após muito discutirmos. Até o teu avô! Eu sei que vocês são imensos… Ainda por cima com tanto gémeo.

Dizia ela, em tom de segredo, com aquele sorriso tão inocente e puro na face. E assim continuou, ensinando-nos tudo sobre o mundo fora das montanhas, sempre às escondidas claro. Explicando que para os outros a nossa pele parecia fria como mármore, assim como a deles seria o mais “morno” que alguma vez sentiríamos antes de nos queimarmos.

- Fiz o que me pediste mãe

Falo para mim mesma, lembrando-me do pedido que ela me havia feito nos seus últimos dias de vida. Será que ela sabia que ia morrer? Ou pensaria ela que o meu destino seria inevitavelmente este, independentemente do que ela fizesse?

- Se algum dia eu desaparecer, terás que ficar no meu lugar. Mas promete-me que tiras os teus irmãos daqui. Por favor filha! Não posso contar com mais ninguém, pois temo que se eu cá não estiver, o teu avô e o teu pai caiam nas ideias da família.

Claro que eu concordei sem pensar duas vezes. Ela era tudo para mim tal como os meus irmãos. E ainda bem que o fiz pois dias depois ela apareceu morta na cama, ao lado do meu pai, com graves queimaduras por todo o corpo. Ao que parece o pai tinha adoecido após ter vindo de Paris. Uma gripe, tão simples pelo que ela dizia. Mas não para nós! A nossa pele ao ficar quente, seria de esperar que nos queimasse, mas não. Sofremos como qualquer mortal, mas quando a temperatura do corpo sobe por si mesma é quem está de fora que se queima connosco. A mãe recusou os conselhos e ficou a noite toda a cuidar dele. O pai diz que não se lembra de nada, pois acordou como se de uma noite de bebedeira se tivesse tratado.

- Pobrezinha! Deve ter sucumbido à paixão carnal e esqueceu-se dos cuidados que devia ter. Os estrangeiros nunca aprendem!

Diziam as más-línguas nos dias que se seguiram. Claro que o meu avô, também ele já frágil da idade, me dizia para nunca deixar que denegrissem a imagem dela, dissessem o que dissessem! E eu aí sim acreditei nele a 100%.


Muitos mistérios escondem as montanhas


segunda-feira, 14 de junho de 2010

Crónicas de uma Jovem IV


Capítulo IV



Tiro de um dos cabides um robe branco, e atiro-o para cima da cama. Dispo o pijama suado e vou para a casa de banho ligando a água.


- Ouch, merda!


Salto para fora da banheira apressadamente. Tinha-me esquecido de ligar somente a torneira da água fria. Erro comum nos membros da família mais novos! Seria de esperar que uma pele tão branca fosse sensível à luz do dia, mas não. Ao que parece o ritual providenciou protecção contra isso, mas todo o corpo é humano e portanto por muito que se enfeitice precisa de equilíbrio.


- Cuidado querida pois apesar de vivermos protegidos dos raios solares, continuamos sujeitos às temperaturas altas! Os líquidos mornos queimam-nos a pele como se fervessem, o ar nos dias de verão quentes torna-se sufocante para os nossos pulmões e nunca sonhes em tocar em algo que esteja quente pois vais queimar-te como se fosse carvão em brasa.


Claro que tudo fez sentido depois dele dizer aquilo, naquela noite de inverno gélida em que podíamos andar na rua despidos e não ter frio. E lógico seria que mais tarde tenha percebido porque é que tudo o que exigia calor ou fogo era sempre usado como se de substâncias radioactivas se tratassem. Era sempre divertido contudo, ver as mulheres a aquecerem os caldeirões a quase um metro deles. E a usarem magia para mexer os preparados em vez da simples colher!


- Perfeita!


Entro na banheira e deito-me, apreciando aquele banho de imersão em água gelada mas que me sabia tão bem. Sempre que relaxava, pensava na injustiça da morte da minha mãe. Ela era tão feliz. Ou pelo menos parecia. Era uma estrangeira, a primeira a entrar na família. Teve que passar por uma série de testes até poder conhecer a nossa casa, já contava o avô.


- A tua mãe é uma mulher formidável. Uma lutadora que por amor fez de tudo!


Desde que ela chegou, as torneiras passaram a ter a de água quente. Mas ela sofria bastante, tentando manter-se saudável apesar do frio que sentia constantemente por não ter a nossa afinidade com temperaturas baixas. A morte dela foi tão estranha e misteriosa na altura e como a maioria a olhava de lado por ser estrangeira, morena e de cabelo preto, também ninguém se importou muito além do nosso pai e do nosso avô que aprenderam a amá-la como ela era: uma mulher lutadora, carinhosa e devota!



Muitos mistérios escondem as montanhas


domingo, 13 de junho de 2010

Crónicas de uma Jovem III


Capítulo III



Levanto-me e caminho na direcção da pequena caixa de ouro. Abro-a e passo a ponta dos dedos suados pelo pendente. Retiro-o da caixa e coloco-o ao pescoço. Fecho os olhos e penso no que aquele espelho me transmitia à alma, no que ele significava… Nas mulheres que já o tinham usado antes de… nunca mais o verem.

- E eles tiveram filhos, que tiveram filhos e mais filhos tiveram. De dois se fizeram 4 e de 4 se fizeram outros tantos. Um livro de feitiços de magia branca e receitas de poções de todos os tipos foi sendo compilado pelas mulheres da família que se dedicavam ao culto dos mesmos enquanto os homens, na forja e nos vidros produziam desde os mais úteis utensílios às mais belas jóias, armazenando todo o conhecimento noutro livro igualmente valioso.


De facto das poucas coisas que ainda hoje não duvido é das vocações da família. Os livros ainda hoje existem e são enormes! Desde o mais humilde ao mais vaidoso, de tudo um pouco se faz. E claro, ninguém nos bate no que respeita a esta área… Se eu ao menos soubesse que havia ainda outra área desenvolvida, talvez tivesse preferido a morte como a minha mãe.


Caminho em direcção ao armário e afasto as portas. Olho para cada uma das roupas que ali estavam. Umas fabricadas na montanha, outras trazidas pelos poucos familiares que saiam da montanha por motivos de comércio. Sim, pois até os mais isolados vão à civilização.


- Nunca se iludam crianças, mesmo nós prosperando neste nosso ninho sigiloso, precisamos dos outros e por isso, às vezes, os de maior confiança vão às grandes cidades. Mas lembrem-se! O segredo das nossas entradas é dos mais valiosos que temos.


Na verdade, ele era honesto. Pois havia outros segredos além daquele. Outros mais profundos que as profundezas das raízes da montanha mais alta. Mas enfim, fui feliz por bastantes anos ainda!


- A nossa alma é aquilo que temos de mais puro. A nossa alma, que está embutida no nosso corpo, que flui no nosso sangue, que está presente em cada palavra que soltamos. É aquilo que somos!


E claro, as teorias metafísicas do avô deixavam-me sempre curiosa e ele sempre contente por me esclarecer todas as dúvidas que iam surgindo. Adorava a forma como ele dizia que a nossa brancura de pele e cabelo reflectia a nossa pureza enquanto feiticeiros. Que os nossos olhos negros eram o sinal do nosso forte carácter. Claro que só mais tarde percebi que na verdade só os ancestrais da família assim o eram de nascimento, pois os seus filhos já nasceram com olhos azuis e pele mais escura. Contudo, para que cada membro da família pudesse reconhecer um outro em qualquer parte do mundo, eles decidiram através de um ritual por eles criado aclarar o cabelo e pele dos recém-nascidos e escurecer os olhos. Por um lado é bom, pois torna-nos únicos mas por outro lado… parecemos uns cadáveres demoníacos ambulantes! O nosso aspecto por muito belo que possa ser torna-se sempre assustador, devido ao contraste entre o branco puro do corpo e o negro carregado dos olhos. Mesmo quem vai à cidade coloca sempre feitiços que mudam as suas feições por algumas horas para passar despercebido. Mal eu sabia que havia mais a dizer sobre o nosso aspecto físico do que pensava…



Muitos mistérios escondem as montanhas


sábado, 12 de junho de 2010

Crónicas de uma Jovem II

Capítulo II


Sento-me na beira da cama, olhando para o retrato de meu avô… Longe vai o tempo das noites passadas em frente à lareira ouvindo as suas histórias que pareciam saídas de um livro de ficção. Por baixo da foto, uma caixa de ouro adornada com filamentos de prata simples contendo o seu pendente espelhado, um pequeno fragmento de espelho ladeado por uma fina camada de ouro puro, única herança por ele deixada. Depois de a minha mãe ter morrido, e com meu pai a trabalhar, somente restou o avô para cuidar de nós e nos ensinar tudo o que devíamos aprender. Lembro-me como se fosse ontem, a noite em que ele sozinho comigo falou sobre como tínhamos chegado às montanhas.

- Lembra-te sempre minha querida, que todos somos únicos.

Ele costumava dizer aquilo todos os dias, para me relembrar que nunca me deveria deixar ir abaixo fosse porque motivo fosse. Que eu seria a mulher da casa em breve e teria que continuar com o legado da família. Legado esse, por sinal bastante antigo! Nem ele se lembrava de quando tudo tinha começado. Era tão engraçada a forma como ele começava a história…

- Ainda eu não era gente, já o meu avô contava estas histórias aos mais novos da família. Em tempos passados, cuja data certa há muito se perdeu, um casal do norte do continente, das terras frias, de pele e cabelos brancos como a neve e olhos negros como a noite, perdeu-se nestas montanhas e para sobreviver, acabou por entrar numa das muitas grutas aqui existentes.

Claro que na altura eu achava impossível que alguém encontrasse alguma das grutas escondidas dos Himalaias, tão bem encobertas por magia e neve. Como eu era ingénua sem saber que só depois daquele casal ter fixado a sua moradia aqui é que elas passaram a ser escondidas. O avô dizia que eles gostaram dos ares da montanha e que descobriram ter tudo o que precisavam aqui. Os vales por entre os picos cheios de vegetação no seu estado primitivo e herbívoros em abundância favoreciam a alimentação e recolha de ervas mágicas para as suas poções. Os riachos, cheios da água mais cristalina proveniente das montanhas saciava a sua sede. E claro, debaixo das montanhas, inúmeros materiais para as construções necessárias, desde o carvão, às pedras preciosas dos adornos amados.

- Ele um mestre da forja e da arte de manipular e encantar os metais, minerais e vidros, ela uma criadora de poções exímia, cuja habilidade só era equiparada com a sua de produzir feitiços de magia branca. Pessoas pacíficas no fundo.

Pacíficas dizia ele… Como sempre fui bem iludida… Como sempre acreditei em todas as palavras que da boca dele saíam. Como fui, uma menina ingénua.


Muitos mistérios escondem as montanhas


Crónicas de uma Jovem I


Capítulo I



De novo aquele corredor de madeira escura. Caminho em direcção à porta deslizante de bambu na outra extremidade e suavemente deslizo os dedos trémulos pela mesma, já sabendo o que ia acontecer. Acontecia sempre aquilo! Seguro então na ranhura da porta, deslizando-a e timidamente enquanto olho para dentro da sala, branca, sem janelas puramente estranha, vendo aquela mulher de robe branco de seda pura e cabelos igualmente brancos caídos à altura dos ombros, quietos, sem brilho, sem vida.

- Quem és tu? Por favor diz-me!

Nada quebrava o silêncio glacial daquela divisão além da minha voz assustada. O coração começa a acelerar à medida que o braço direito da mulher graciosamente se move, apontando o espelho que estava à frente dela. Movo-me ligeiramente para o lado para poder visualizar o reflexo, mas ainda com os olhos fechados. Eu sabia. Eu sabia o que ia ver! Eu sabia o que ia acontecer mas nada podia fazer para evitar. Respiro fundo e então abro os olhos vendo aquela imagem acompanhada de sons de cata-ventos com guizos agitados ao ritmo de um coração apressado.

- NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOO…

Acordo sobressaltada, com o suor escorrendo em bica pela face e os lençóis de algodão branco já encharcados. A janela aberta deixava o vento entrar e fazer as cortinas quase translúcidas esvoaçar pelo quarto. Uma bela noite de lua cheia preenchia aquele céu estrelado, tão visível daquele local. Levanto-me ainda tremendo um pouco do sonho e aproximo-me da janela sobre a qual me debruço, colocando a cabeça de fora para respirar um pouco de ar puro. O ar das montanhas dos Himalaias sempre gélido enche-me os pulmões e faz-me por momentos esquecer aquilo que havia sonhado ainda há pouco. Olho para a bela paisagem… nada se via além de montanhas e mais montanhas, com os seus ocasionais vales e riachos vindos dos topos gelados. Porque era eu atormentada com aquilo todas as noites? Aquele som dos guizos, aquele corredor, e pior que tudo! Aquela imagem feminina.


Muitos mistérios escondem as montanhas


No Name Story



Após muito reflectir, porque não ir metendo aqui o que já escrevi. Não são obras literárias de renome, nem tão pouco sinal de criatividade pois o ser humano nada inventa, e muito menos eu o faria ou farei quando somente o faço por diversão.

Textos, capítulos todos eles encadeados num evento geral, mas todos eles à sua maneira diferentes. Se uma primeira parte explica tudo, as seguintes serão como diferentes pessoas, diferentes acidentes, diferentes místicas, culturas, poderes e imaginários agem e reagem ao que sucedeu.


De forma sucinta pode dizer-se que tudo começou devido à curiosidade do ser humano. Por muito que tenha quer sempre mais e mais e mais e muito mais. Mas às vezes quer demais e as consequências como todos sabemos podem ser devastadoras. Claro que há sempre quem tente emendar os erros do passado, mas até que ponto eles podem ser emendados? Por vezes estamos destinados a eternamente pagar pelos erros de certas pessoas, mas a vida é isso mesmo, tentar e errar.

Quem sabe será da próxima vez que se fecha a porta? Quem sabe será da seguinte que se evita um derramar de sangue? Laços de família, laços de amizade, laços de amor, laços de ódio e raiva. Tudo se mistura e no final, nada parece importar. Pois no final tudo termina, e somente se sabe que... se deseja que haja uma próxima geração que volte a tentar. Importa é tentar, embora não se consiga.

A história não tem nome, embora cada grupo de mini-capítulos tenha um tema. E em cada grupo de capítulos podemos ver como têm tanto em comum embora possam parecer ser tão distantes quanto humanamente possíveis entre si. Num mundo de rituais e magia, ou sem magia nem rituais. Ou se calhar com ambos! Nunca se sabe ao certo quem virá a seguir, nem se quem veio antes conseguiu progressos ou não. Importa é saber que independentemente de quem lá chega, todos acabam por tentar ajudar, nem que paguem com a vida!


*Carlos