Capítulo I
De novo aquele corredor de madeira escura. Caminho em direcção à porta deslizante de bambu na outra extremidade e suavemente deslizo os dedos trémulos pela mesma, já sabendo o que ia acontecer. Acontecia sempre aquilo! Seguro então na ranhura da porta, deslizando-a e timidamente enquanto olho para dentro da sala, branca, sem janelas puramente estranha, vendo aquela mulher de robe branco de seda pura e cabelos igualmente brancos caídos à altura dos ombros, quietos, sem brilho, sem vida.
- Quem és tu? Por favor diz-me!Nada quebrava o silêncio glacial daquela divisão além da minha voz assustada. O coração começa a acelerar à medida que o braço direito da mulher graciosamente se move, apontando o espelho que estava à frente dela. Movo-me ligeiramente para o lado para poder visualizar o reflexo, mas ainda com os olhos fechados. Eu sabia. Eu sabia o que ia ver! Eu sabia o que ia acontecer mas nada podia fazer para evitar. Respiro fundo e então abro os olhos vendo aquela imagem acompanhada de sons de cata-ventos com guizos agitados ao ritmo de um coração apressado.
Acordo sobressaltada, com o suor escorrendo em bica pela face e os lençóis de algodão branco já encharcados. A janela aberta deixava o vento entrar e fazer as cortinas quase translúcidas esvoaçar pelo quarto. Uma bela noite de lua cheia preenchia aquele céu estrelado, tão visível daquele local. Levanto-me ainda tremendo um pouco do sonho e aproximo-me da janela sobre a qual me debruço, colocando a cabeça de fora para respirar um pouco de ar puro. O ar das montanhas dos Himalaias sempre gélido enche-me os pulmões e faz-me por momentos esquecer aquilo que havia sonhado ainda há pouco. Olho para a bela paisagem… nada se via além de montanhas e mais montanhas, com os seus ocasionais vales e riachos vindos dos topos gelados. Porque era eu atormentada com aquilo todas as noites? Aquele som dos guizos, aquele corredor, e pior que tudo! Aquela imagem feminina.
Muitos mistérios escondem as montanhas