terça-feira, 15 de junho de 2010

Crónicas de uma Jovem V


Capítulo V



As horas vão passando sem que eu dê conta, até que a pele começa a ficar enrugada e reparo no relógio.

- Vou atrasar-me… Daqui a pouco devem estar a vir chamar-me.

A minha mãe nunca se atrasava, nem sequer voltava atrás na palavra. Uma mulher honrada, um membro da família respeitado embora não amado pela maioria e acima de tudo, uma mãe perfeita! Dava-nos toda a atenção que podia e ensinava-nos tudo o que conseguia. Aquela voz doce e calma, quase parecida com a do avô…

- Filha, se algum dia puderes, visita outros lugares e conhece outras pessoas. Há tanto no mundo além destas montanhas! Falei com algumas pessoas para te inscrever a ti e aos teus irmãos numa escola fora daqui. Falei com o teu pai e ele concordou após muito discutirmos. Até o teu avô! Eu sei que vocês são imensos… Ainda por cima com tanto gémeo.

Dizia ela, em tom de segredo, com aquele sorriso tão inocente e puro na face. E assim continuou, ensinando-nos tudo sobre o mundo fora das montanhas, sempre às escondidas claro. Explicando que para os outros a nossa pele parecia fria como mármore, assim como a deles seria o mais “morno” que alguma vez sentiríamos antes de nos queimarmos.

- Fiz o que me pediste mãe

Falo para mim mesma, lembrando-me do pedido que ela me havia feito nos seus últimos dias de vida. Será que ela sabia que ia morrer? Ou pensaria ela que o meu destino seria inevitavelmente este, independentemente do que ela fizesse?

- Se algum dia eu desaparecer, terás que ficar no meu lugar. Mas promete-me que tiras os teus irmãos daqui. Por favor filha! Não posso contar com mais ninguém, pois temo que se eu cá não estiver, o teu avô e o teu pai caiam nas ideias da família.

Claro que eu concordei sem pensar duas vezes. Ela era tudo para mim tal como os meus irmãos. E ainda bem que o fiz pois dias depois ela apareceu morta na cama, ao lado do meu pai, com graves queimaduras por todo o corpo. Ao que parece o pai tinha adoecido após ter vindo de Paris. Uma gripe, tão simples pelo que ela dizia. Mas não para nós! A nossa pele ao ficar quente, seria de esperar que nos queimasse, mas não. Sofremos como qualquer mortal, mas quando a temperatura do corpo sobe por si mesma é quem está de fora que se queima connosco. A mãe recusou os conselhos e ficou a noite toda a cuidar dele. O pai diz que não se lembra de nada, pois acordou como se de uma noite de bebedeira se tivesse tratado.

- Pobrezinha! Deve ter sucumbido à paixão carnal e esqueceu-se dos cuidados que devia ter. Os estrangeiros nunca aprendem!

Diziam as más-línguas nos dias que se seguiram. Claro que o meu avô, também ele já frágil da idade, me dizia para nunca deixar que denegrissem a imagem dela, dissessem o que dissessem! E eu aí sim acreditei nele a 100%.


Muitos mistérios escondem as montanhas