Capítulo II
Sento-me na beira da cama, olhando para o retrato de meu avô… Longe vai o tempo das noites passadas em frente à lareira ouvindo as suas histórias que pareciam saídas de um livro de ficção. Por baixo da foto, uma caixa de ouro adornada com filamentos de prata simples contendo o seu pendente espelhado, um pequeno fragmento de espelho ladeado por uma fina camada de ouro puro, única herança por ele deixada. Depois de a minha mãe ter morrido, e com meu pai a trabalhar, somente restou o avô para cuidar de nós e nos ensinar tudo o que devíamos aprender. Lembro-me como se fosse ontem, a noite em que ele sozinho comigo falou sobre como tínhamos chegado às montanhas.
- Lembra-te sempre minha querida, que todos somos únicos.
Ele costumava dizer aquilo todos os dias, para me relembrar que nunca me deveria deixar ir abaixo fosse porque motivo fosse. Que eu seria a mulher da casa em breve e teria que continuar com o legado da família. Legado esse, por sinal bastante antigo! Nem ele se lembrava de quando tudo tinha começado. Era tão engraçada a forma como ele começava a história…
- Ainda eu não era gente, já o meu avô contava estas histórias aos mais novos da família. Em tempos passados, cuja data certa há muito se perdeu, um casal do norte do continente, das terras frias, de pele e cabelos brancos como a neve e olhos negros como a noite, perdeu-se nestas montanhas e para sobreviver, acabou por entrar numa das muitas grutas aqui existentes.
Claro que na altura eu achava impossível que alguém encontrasse alguma das grutas escondidas dos Himalaias, tão bem encobertas por magia e neve. Como eu era ingénua sem saber que só depois daquele casal ter fixado a sua moradia aqui é que elas passaram a ser escondidas. O avô dizia que eles gostaram dos ares da montanha e que descobriram ter tudo o que precisavam aqui. Os vales por entre os picos cheios de vegetação no seu estado primitivo e herbívoros em abundância favoreciam a alimentação e recolha de ervas mágicas para as suas poções. Os riachos, cheios da água mais cristalina proveniente das montanhas saciava a sua sede. E claro, debaixo das montanhas, inúmeros materiais para as construções necessárias, desde o carvão, às pedras preciosas dos adornos amados.
- Ele um mestre da forja e da arte de manipular e encantar os metais, minerais e vidros, ela uma criadora de poções exímia, cuja habilidade só era equiparada com a sua de produzir feitiços de magia branca. Pessoas pacíficas no fundo.
Pacíficas dizia ele… Como sempre fui bem iludida… Como sempre acreditei em todas as palavras que da boca dele saíam. Como fui, uma menina ingénua.
Muitos mistérios escondem as montanhas