domingo, 13 de junho de 2010

Crónicas de uma Jovem III


Capítulo III



Levanto-me e caminho na direcção da pequena caixa de ouro. Abro-a e passo a ponta dos dedos suados pelo pendente. Retiro-o da caixa e coloco-o ao pescoço. Fecho os olhos e penso no que aquele espelho me transmitia à alma, no que ele significava… Nas mulheres que já o tinham usado antes de… nunca mais o verem.

- E eles tiveram filhos, que tiveram filhos e mais filhos tiveram. De dois se fizeram 4 e de 4 se fizeram outros tantos. Um livro de feitiços de magia branca e receitas de poções de todos os tipos foi sendo compilado pelas mulheres da família que se dedicavam ao culto dos mesmos enquanto os homens, na forja e nos vidros produziam desde os mais úteis utensílios às mais belas jóias, armazenando todo o conhecimento noutro livro igualmente valioso.


De facto das poucas coisas que ainda hoje não duvido é das vocações da família. Os livros ainda hoje existem e são enormes! Desde o mais humilde ao mais vaidoso, de tudo um pouco se faz. E claro, ninguém nos bate no que respeita a esta área… Se eu ao menos soubesse que havia ainda outra área desenvolvida, talvez tivesse preferido a morte como a minha mãe.


Caminho em direcção ao armário e afasto as portas. Olho para cada uma das roupas que ali estavam. Umas fabricadas na montanha, outras trazidas pelos poucos familiares que saiam da montanha por motivos de comércio. Sim, pois até os mais isolados vão à civilização.


- Nunca se iludam crianças, mesmo nós prosperando neste nosso ninho sigiloso, precisamos dos outros e por isso, às vezes, os de maior confiança vão às grandes cidades. Mas lembrem-se! O segredo das nossas entradas é dos mais valiosos que temos.


Na verdade, ele era honesto. Pois havia outros segredos além daquele. Outros mais profundos que as profundezas das raízes da montanha mais alta. Mas enfim, fui feliz por bastantes anos ainda!


- A nossa alma é aquilo que temos de mais puro. A nossa alma, que está embutida no nosso corpo, que flui no nosso sangue, que está presente em cada palavra que soltamos. É aquilo que somos!


E claro, as teorias metafísicas do avô deixavam-me sempre curiosa e ele sempre contente por me esclarecer todas as dúvidas que iam surgindo. Adorava a forma como ele dizia que a nossa brancura de pele e cabelo reflectia a nossa pureza enquanto feiticeiros. Que os nossos olhos negros eram o sinal do nosso forte carácter. Claro que só mais tarde percebi que na verdade só os ancestrais da família assim o eram de nascimento, pois os seus filhos já nasceram com olhos azuis e pele mais escura. Contudo, para que cada membro da família pudesse reconhecer um outro em qualquer parte do mundo, eles decidiram através de um ritual por eles criado aclarar o cabelo e pele dos recém-nascidos e escurecer os olhos. Por um lado é bom, pois torna-nos únicos mas por outro lado… parecemos uns cadáveres demoníacos ambulantes! O nosso aspecto por muito belo que possa ser torna-se sempre assustador, devido ao contraste entre o branco puro do corpo e o negro carregado dos olhos. Mesmo quem vai à cidade coloca sempre feitiços que mudam as suas feições por algumas horas para passar despercebido. Mal eu sabia que havia mais a dizer sobre o nosso aspecto físico do que pensava…



Muitos mistérios escondem as montanhas